quarta-feira, 16 de abril de 2008

Natália, correia

«Já que o coito – diz Morgado –
tem como fim cristalino
preciso e imaculado
fazer menina ou menino;
e cada vez que o varão
sexual petisco manduca
temos na procriação
prova de que houve truca-truca.
Sendo pai só de um rebento,
lógica a conclusão
de que o viril instrumento
só usou – parca ração! –
uma vez. E se a função
faz o órgão – diz o ditado –
consumada essa excepção,
ficou capado o Morgado»

in Diário de Lisboa, abril de 1982

a graça de Moura










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De “O Fidalgo Aprendiz”

Primeira Jornada

Saie Alfonso Mendez, vestido à portuguesa antiga; botas brabas, festo, pelote, gorra, espada em talabarte

Sou velho, já fui mancebo,
Cousa que, mal que lhes pês,
Virá por vossas merecês.
Naci no Lagar do Sebo,
Faz hoje setenta e três.
Fui prezado, fui temido,
Passei sóis, passei serenos,
Rompi bons vintadozenos
Já nunca mudei vestido,
E inda fato mudei menos.
Sei o açougue no Recio,
Os Estaus da Inquisição.
Vi el- Rei Dom Sebastião.
Sem dinheiro, quis ter brio:
fiquei perpetuo rascão.
Hoje sirvo, não sei donde,
lá de riba, um escudeiro,
enfronhado em cavaleiro
que, de andar posto em ser conde
se não conde é condandeiro

de Junqueiro

(…)
E nessa escuridão gomórrica e confusa
Minha porra encontrou atascados em merda,
Chagas, Mendes Leal e o César de Lacerda.
Volvidos dias três, três sois volvidos, eu,
Com a alma mais triste e negra do que o breu,
Procurei um doutor, um dos grandes portentos
Que fazem dos bubões e dos esquentmentos
Modo de vida e disse ao meu doutor: Doutor,
Eis aqui este gancho, eis aqui esta dor
Que desgraça, doutor! Veja você – um Cristo!...
E esta porra. Acordei hoje com tudo isto,
Observe-me esta porra, ó conspícuo alveitar:
Vê esta purgação? – São os «Homens do Mar».
Cinismo, Cepticismo e Crença», em Alviela
Correm aqui. Maldita, ó! Maldita a panela
De Talia, onde encontrei este gálico novo,
Feito da «Probidade» e do «Drama do Povo»...
E o profundo doutor retorquiu desta sorte:
- Talia tem no cu Chagas, isto é, a morte;
Tem Lacerda – o flagelo! – e tem Mendes Leal!
Uma combinação da «Escola Social»
E Judia produz este gálico raro
Que se arranja no Pindo e que se cura em Faro.
..........................................................................
Gonçalves exprimiu assim seu pensamento
E eu disse-lhe: - Você, Gonçalves, tenha tento
Na bola e não me foda as Musas de tal guisa
As musas mortais fodem-se com camisa
De Vénus. Pois você, ó Gonçalves dos diabos
De rabo alçado enraba assim os nove rabos
Dessas Musas, e quer você, ainda por cima
Ter talento e saúde... Um homem, quando arrima
Uma trombicadela, é preciso levar
Um antídoto bom contra os «Homens do Mar»...

De As Musas

o tempo e a sátira

(...)
À consciência da fugacidade do tempo, da transitoriedade de tudo, pode reagir-se de diversas maneiras. A minha pessoal maneira de reagir (e peço perdão dela vir ao caso) é a amarração ao efémero do tempo e do sítio em que, por insondáveis carambolas, me é dado viver. Mas que o efémero que representa o meu aqui-agora e que eu, muito humanamente desejo fixar (com todas as suas – e minhas – contradições, opções, lutas, etc.) tem o seu peculiar «décor», os seus adereços, as suas típicas personagens, a sua acção e os seus dizeres. Se eu não me pormenorizar neles, ao mesmo tempo deles, tomando distância mediante uma operação de sobrevivência chamada ironia, que testemunho darei de mim mesmo (a mim mesmo como consciência angustiada da efemeridade da minha vida ) do tempo-sítio que é o meu para mim?
(...)
Alexandre O'Neill
in Prefácio “Obras Completas de Nicolau Tolentino”

O'Neill olhando-se










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O'Neill, "Que vergonha..."





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Prosa de Eça...










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Este Bocage do soneto







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de Tolentino










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excerto de "O Bilhar"

terça-feira, 15 de abril de 2008

de Sá de Miranda

A António Pereira, senhor do Basto, quando se pariu para a Corte co a casa toda

(...)
Não me temo de Castela,
donde inda guerra Não soa;
Mas temo-me de Lisboa,
que ao cheiro desta canela
o Reino nos despovoa.

(...)

Ouves, Viriato, o estrago
que cá vai os teus costumes?
Os leitos , mesas e os lumes,
todo cheira: eu trago óleos;
vem outros, trazem perfumes.

Sátiras de Camões

Ao duque de Aveiro que, tendo prometido enviar uma galinha ao poeta, lhe mandou um pedaço de carne de vaca.

Já eu vi a taberneiro
vender vaca por carneiro;
mas não vi por vida minha
vender vaca por galinha
senão ao duque de Aveiro.



Esparsa a um fidalgo na Índia que lhe tardava com ua camisa galante, que lhe prometeu.

Quem no mundo quiser ser
havido por singular,
para mais se engrandecer,
há-de trazer sempre o dar
nas ancas do prometer.
E já que vossa mercê
largueza tem por divisa,
como todo mundo vê,
há mister que tanto dê
que venha dar a camisa

De Gil Vicente

Velha: (...)
Es tu moça ou bacharel?
Nam deprendeste tu assi
O verbo d’ aninma Christie
Que tantas vezes ouviste
Isabel : Isso nam he para mi.

Velha : e pois quê?
Isabel: Eu vo-lo direi
Ir a miude ao espelho
e poer do branco e vermelho,
e outras cousas que eu sei:
pentear curar de mi
e poer a ceja em dereito;
e morder por meu proveito
estes beicinhos assi,
Ensinar-me a passear,
pera quando for casada
nam digam que foi criada
em cima de algum tear,
Saber sentir um recado,
e responder emproviso
e saber fingir um riso
falso e bem dissimulado.

Velha: E o lavrar, Isabel?
Isabel: Faz a moça mui mal feita,
corcovada, contrafeita (...)

excerto de "Quem Tem Farelos?"

De “O Fidalgo Aprendiz”

Primeira Jornada

Saie Alfonso Mendez, vestido à portuguesa antiga; botas brabas, festo, pelote, gorra, espada em talabarte.

Sou velho, já fui mancebo,
Cousa que, mal que lhes pês,
Virá por vossas merecês.
Naci no Lagar do Sebo,
Faz hoje setenta e três.
Fui prezado, fui temido,
Passei sóis, passei serenos,
Rompi bons vitadozenos
Já nunca mudei vestido,
E inda fato mudei menos.
Sei o açougue no Recio,
Os Estaus da Inquisição.
Vi el- Rei Dom Sebastião.
Sem dinheiro, quis ter brio:
fiquei perpetuo rascão.
Hoje sirvo, não sei donde,
lá de riba, um escudeiro,
enfronhado em cavaleiro
que, de andar posto em ser conde
se não conde é condandeiro

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Prólogo do Cancioneiro Geral

Muito alto e muito poderoso Príncipe Nosso Senhor
Porque a natural condiçam dos Portugueses é nunca escreverem cousa que façam, endo dinas de grande memória, muitos e mui grandes feitos de guerra; paz e vertudes, de ciência, manhas e gentilezas sam esquecidos. Que, se os escritores se quisessem acupar a verdadeiramente escrever nos feitos de Roma, Tróia e todas outras antigas crónicas e estórias, nam achariam mores façanhas nem mais notáveis feitos que os que dos nossos naturais se podiam escrever, assi dos tempos passados como d'agora: tantos reinos e senhorios, cidades, vilas, castelos, per mar e per terra tantas mil légoas, per força d'armas tomados, sendo tanta a multidão de gente dos contrairos e tam pouca a dos nossos, sostidos com tantos trabalhos, guerras, fomes e cercos, tão longe d'esperança de ser socorridos, senhoreando per força d'armas tanta parte de África, tendo tantas cidades, vilas e fortalezas tomadas e continuamente em guerra sem nunca cessar, e assi Guiné, sendo muitos reis grandes e grandes senhores seus vassalos e trebutários e muita parte de Etiópia, Arábia, Pérsia e Índias, onde tantos reis mouros e gentios e grandes senhores sam per força feitos seus súditos e servidores, pagando-lhe grandes páreas e tributos e muitos destes pelejando por nós, debaixo da bandeira de Cristos com os nossos capitães, contra os seus naturais, conquistando quatro mil légoas por mar que nenhuas armadas do Soldam nem outro nenhum gram rei nem senhor nom ousam navegar com medo das nossas, perdendo seus tratos, rendas e vidas, tornando tantos reinos e senhorios com inumerável gente à fé de Jesu Cristo, recebendo água do santo bautismo, e outras notáveis cousas que se não podem em pouco escrever.
Todos estes feitos e outros muitos doutras sustâncas nam sam devulgados como foram, se gente doutra naçam os fizera. E causa isto serem tam confiados de si, que não querem confessar que nenhuns feitos sam maiores que os que cada um faz e faria, se o nisso metessem. E por esta mesma causa, muito alto e poderoso Príncepe, muitas cousas de folgar e gentilezas sam perdidas, sem haver delas notícia, no qual conto entra a arte de trovar que em todo tempo foi mui estimadada e com ela Nosso Senhor louvado, como nos hinos e cânticos que na Santa Igreja se cantam se verá.
E assi muitos emperadores, reis e pessoas de memória, polos rimances e trovas sabemos suas estórias e nas cortes dos grandes Príncepes é mui necessária na gentileza, amores, justas e momos e também para os que maus trajos e envenções fazem, per trovas sam castigados e lhe dam suas emendas, como no livro ao adiante se verá. E se as que sam perdidas dos nossos passados se puderam haver e dos presentes se escreveram, creo que esses grandes Poetas que per tantas partes sam espalhados não teveram tanta fama como tem.
E porque, Senhor, as outras cousas sam em si tam grandes que por sua grandeza e meu fraco entender nam devo de tocar nelas, nesta que é a somenos, por em algúa parte satisfazer ao desejo que sempre tive de fazer algúa cousa em que Vossa Alteza fosse servido e tomasse desenfadamento, determinei ajuntar algúas obras que pude haver dalguns passados e presentes e ordenar este livro, nam pera por elas mostrar quais foram e sam, mas para os que mais sabem s'espertarem a folgar d'escrever e trazer à memória os outros grandes feitos, nos quais nam sam dino de meter a mão.
Garcia de Resende

do cancioneiro de Garcia de Resende

Já me nam dá de comer
senam minha fazendinha;
rei nem roque nem rainha
nam queria nunca ver.

O pagar das moradias
é o que mais contenta,
o despachar da ementa,
as madrugadas tam frias;
trabalhar noites e dias
por ser na corte cabidos,
e, os tempos despendidos,
ficar com as mãos vazias.

Armadas idas d'além
já sabeis como se fazem:
quantos cativos lá jazem,
quantos lá vão que nam vêm!
E quantos esse mar tem
somidos que não parecem,
e quam cedo cá esquecem,
sem lembrarem a ninguém!

E alguns que sam tornados,
livres destas borriscadas,
se os is ver às pousadas,
achai-los esfarrapados,
pobres e necessitados
por mui diversas maneiras
por casas das regateirasos
vestidos apenhados.

Por isto, senhor Mafoma,
tresmontei cá nesta Beira,
por tomar a derradeiravida,
que todo o homem toma;
porque há lá tanta soma
de males e de paixam
que, por não ser cortesão,
fugirei daqui té Roma.

Fim

Agora julgai vós lá
se fiz mal nisto que faço:
em me tirar desse Paço
e mudar-me para cá;
pois é certo que, se dá
algum pouco galardam,
lança mais em perdiçam
do que nunca ganhará.

João Roiz de Castel-Branco, Cancioneiro Geral, III, 120-124

cantiga de escárnio



De João Garcia de Ghilhade

Ai, dona fea, fostes-vos queixar,
[que] vos nunca louv’ en meu trobar;
mais ora quero fazer um cantar,
en que vos loarei toda via;
e vedes como vos quero loar:
dona fea, velha e sandia!

Ai, dona fea, se Deus mi perdon,
E pois avedes tam gra coraçon
que vos eu lôe, em esta razon
vos quero ja loar toda via;
e vedes qual será a loaçom:
dona fea, velha e sandia!

Dona fea, nunca vos eu loei
en meu trobar, pero muito trobei;
mais ora ja um bom cantrar farei,
en que vos loarei toda via;
e direi-vos como vos loarei:
dona fea, velha e sandia!

(C. V. 1097; C B N., 1399)

sábado, 26 de janeiro de 2008


























NORTE é uma plaquette constituída por um conjunto de gravuras e de um poema estendido ao longo de catorze fragmentos em folhas soltas


















nos restos da cidade
desabitada que foi pelas parcelas de rio
e charcos da tempestade,
apenas na luz distante os barcos flutuam

encontro na noite o interior
das vozes que se calam ao meio-dia claro

na noite de lisboa as paredes tremem,
ainda que sejam cobertas de portas e de vidros
quando o sangue inesperado me corre pelo rosto

ninguém me falou na transparência dos vidros
e o cimento é demasiado opaco para que
os sinais se transformem nas ruas empedradas
onde as almas são intocáveis
e as raízes vão manietando
o meu corpo aberto sobre um sonho
onde passa um jardim

de costas para o estuário
escolho as palavras que gritam a cidade
e no mesmo movimento deixo que a água
me amoleça e trespasse
e a luz intermitente me adormeça o cansaço

só a ilusão de uma sombra cinzenta
resiste ao mar que me levou e me trouxe
morre de saudade este mar
incutiram-lha os de torna-viagem,
nada já reside nos outros, só em mim paira
o desmaio num sorriso acorrentado
aos olhos, procurando o novo mundo
como se fosse possível navegar ainda mais

in Com a Cidade no Corpo (edição da CML)

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

O vermelho e o Negro

O Vermelho e o Negro, uma separata da Antologia o Homem em Trânsito da editora Indícios do Oiro, é o número zero (edição de autor, não comercializável) desta série de livros de contos da colecção gema da editora Europress, que viria a publicar depois Olhar o Silêncio, Água e Fogo e Silêncios Comprados















10. clara:

«rio de mouro, vinte e dois de Outubro». Agora vou datar tudo. É necessário que assim seja. No tempo do gustavo era diferente. Agora não. Vou sair para o bar e ver se é saudável o rebanho guardado por mastins de três cabeças.
O bar situava-se no ventre de um bicho gigantesco. Era um rinoceronte com um enormíssimo corno no meio, como todos os rinocerontes, só que este entoava melodias em desuso, roncos imprecisos, enquanto galopava cego pela noite dentro e aparecia reflectido numa bola multifacetada de espelhinhos pendente do tecto.
Um homenzinho, baixinho e peludinho, sentou-se juntinho de si e pediu dois uisquezinhos. Sorveram-nos, passearam-nos pelas gargantas, e ele perguntou-lhe das suas fantasias.
- Não tenho fantasias, respondeu clara.
- Pois eu tenho-as. Gosto de me segurar num candeeiro como se fosse um trapézio e aí, sim, rodopiar toda a noite.
- Ah, isso é mais caro, muito caro mesmo, nada menos do que seiscentas mil dolzas. O homem pareceu agradado, já não via nada senão aquelas brancuras de carne e fixara-se a si próprio na imagem do candeeiro, viajando pelo sexo em círculos reflectidos num espelho existente no soalho.

de O Vermelho e o Negro

















Em 1970, já tinha feito uma experiência nesta forma de edição de autor , a plaquette, em conjunto com Wanda Ramos (1948-1998), que participou com os poemas que deram o título à publicação






















Em 2005, fiz uma experiência de uma plaquette em edição artesanal de vinte exemplares, numerados e assinados, de um «livre d'artiste» (para utilizar a designação franacesa que deu nome a este tipo de edições)

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Silêncios Comprados


















(...) E o cão, à chuva, fazendo jus ao seu carisma de “dog in the rain”. O cão que olhava os humanos com muita tristeza e condescendência, o pêlo molhado a escorrer lágrimas fieis.(...)

de Dog in the rain

Histórias e Teatrada Com Alguma Bicharada



















Talvez um dos intereses desta peça seja o aspecto ecológico da preservação da água, o que é dado na cena das rãs.
As ilustrações são minhas, sendo esta capa uma colagem

A Casa- Mãe



















É um livro autobiográfico com relatos de experiência ligados ao ensino e também a grupos de formação. Foi baseado numa entrevista feita para este efeito, onde refiro os meus contactos com as correntes rogereanas e antropoanalíticas a que estive ligado, sobretudo nos anos oitenta, bem como a Max Pagès. O livro tem um capítulo final deste psicisociólogo francês, com quem trabalhei e aprendi, nessa altura, e ainda pela década de noventa. Ele tem um modelo dialéctico em que pretende integrar três vertentes: Freud e psicanálise, a bioenergia de Reich e o marxismo.
Talvez a componente autobiográfica neste meu livro tenha sido um pouco precoce...

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008



















Aqui relato e analiso experiências em dramaterapia, role-play e grupos de formação.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Pedagogia Centrada na Pessoa


















primeira e segunda edição

Pedagogia Centrada na Pessoa reune, em grande parte, artigos e relatos de experiência publicados em "O Jornal da Educação". Na altura despertou alguma curiosidade de leitura - daí a sua reedição - e assinla uma corrente e uma época.

,




















Prefácio de Vergílio Alberto Vieira
Tudo acontece como se

Nas entranhas do tempo / há uma roda dentada
Iosif Brodskii, Paisagem Com Inundação

Diferente consciência do facto poético, ou tão-só inquietação existencial decorrente da crise (e esgotamento) do homem, ao ponto de tornar a palavra «facto de consciência», como lhe chama George Steiner, talvez nunca tanto se tenha esperado da palavra poética, talvez nunca tanto se tenha esperado que a palavra poética assumisse o seu papel de antídoto contra «rotinas inertes» que impedem o homem de viver a poesia e o destino humano de vir a ser horizonte de esperança. Efeito da intolerância política, da intolerância religiosa, ou da falta de saber, da falta de conhecimento que corrompe aquela reserva de humanidade que responde pela condição do homem consigo mesmo? Tudo isso e muito mais, sobretudo quando a cultura vivida se torna incapaz de obstar à estética da violência que aflige as sociedades desenvolvidas.
Tentado a questionar-se sobre a necessidade de saber que tempo, afinal, vivemos, nós, quis António Ferra fazer do seu discurso, não um efeito de estilo, mas um processo de comunicação poética concretamente dirigido à consciência de si, que o mesmo é dizer: à consciência do tempo que somos: «(...) tudo isso está perdido dentro de mim», entenda-se: « (...) mas com uma nostalgia tramada (...)» ( in «perdi a password» ). O que releva, porém, de uma estética que conhece o risco de poder inflectir para lugares da escrita redutores do impulso criador: «olhem para mim de poema panfletário na ponta das teclas» - variante da «maldição» que o juízo crítico se encarregou de situar no quadro das manifestações artísticas do século transacto (Surrealismo, Vanguardas, etc.) – é antes a conquista de um espaço literário marcado pela possibilidade da poesia, enquanto princípio unificador da totalidade do homem (e da sua historicidade): « (...) é preciso calafetar a alma», escreve o poeta: « (...) como se estivesse o mundo global em gestação dentro de mim» (in «fazia o favor de me» ). Isto, apesar de ter conhecimento de que, na vida, já lhe é exigido: «(...) muito, muito mais do que o necessário» e que na «europinha», das sociedades satisfeitas, insiste Steiner, ainda pesa: «(...) a porra do pecado original». Não é fácil continuar a ser «politicamente incorrecto» e tornar o poeta (leia-se: o ente histórico) voz de eleição, sem querer: «(...) pôr fim à porcaria dos poemas encharcados de quotidiano / até cheirar mal», como diz o poema «canalização», nomeadamente quando verbalizar a vida diária em tempo de fuga é tarefa de Sísifo para o poeta, a braços com uma experiência humana exausta.
Assim sendo, registe-se em que medida esta poesia – herdeira a seu modo do inconformismo que levara a Beat Generation a romper com todos e contra todos, primeiro, para tudo e todos aceitar, mais tarde – tende a expor a sua rebeldia. «(...) quero respirar, quero escrever o que me vem à cabeça / com todos os sentidos, depois logo se vê.» sem, no entanto, se prender à maldição baudelairiana (ou pós-baudelairiana) e abdicar do dispositivo retórico que a aproxima de um sentido espiritual, sentimental e poético próprios: «E depois há ainda o tempo todo/para servir a alma de um bicho de conta enrolado sobre si» (in «bicho de conta» ). Uma última anotação para as rupturas discursivas operadas, não apenas conjunturalmente, mas verso a verso, uma vez que os mecanismos formais e imagética accionados se transformam, a breve trecho, na marca distintiva (marca de artista) mais obsessivamente reiterada em A Palavra Passe. Trata-se, com efeito, daquilo a que George Steiner, em Extraterritorial: a literatura e a revolução da linguagem, denomina «condição de uso linguístico, lexical e sintáctico», e da qual depende, em última análise, a percepção ontológica desta poética, com frontalidade jogada à consciência colectiva daquele «sereno desespero» thoreauniano que há-de continuar a fazer-nos «progredir no declínio», ou fazer do presente, como assinalou Raoul Vaneigem, um verbo «conjugado no passado» .

____________________________________________________
A LÍRICA DAS RUAS EM ANTÓNIO FERRA

texto de apresentação de Baptista- Bastos


A única e, afinal, muito pouca coisa, que me recomenda para falar de «A Palavra Passe» é porque sou um velho, constante e permanentemente surpreendido leitor de poesia. De tal forma a poesia se me torna indispensável que tenho por hábito ler, em voz alta, aqueles dos meus favoritos. António Ferra passou a fazer parte desses Dilectos, daqueles que, através das imagens que as palavras propiciam, tornam visível o invisível, e emocionante o que é impossível revelar por outros meios.
Estamos em presença da grande poesia, incluída na lógica da grande arte: a que exprime uma pessoal forma de verdade e um particular modo de ver e de dizer. E, também, aquela que dá notícias: dos dias cinzentos, do azebre da rotina, do espanto moroso, da cama desfeita, das esparsas pilhas de pequenas palavras, do entardecer, do excesso, da senhora de cabelos caídos. Eis a enternecedora lírica das ruas, por onde perpassam os outonos tristes e ocres, as convalescências da solidão, as primaveras frescas e verdes - e esse local de infância e de assombro que acaba logo ali.
António Ferra conta-nos a viagem móvel das cores longínquas de uma cidade, cuja severa opulência oculta uma humanidade obscura. Vejo-o muito próximo do Cesário, que nos falou de uma peculiar soturnidade, e onde o homem moderno, como objecto de interrogação, não perdeu o sentido da sua específica importância. O poeta dá-nos a palavra passe para o labirinto através do qual se manifesta a luta, por vezes exacerbada, entre o corpo e o espírito, a fé no amor que não precisa de argumentos e a violência de uma sociedade incapaz de tolerância e mais propensa aos sermões - como se infere desse surpreendente poema, «Chá e Lixo», que me parece ser o manifesto de uma dor suprema, com ergueres e recaídas, nunca com renúncias.
Um itinerário de vida, uma outra relação com o tempo, e um jogo de metáforas sobre a época tão trágica quanto ilusória que nos coube viver. Há, nestes poemas, que podem ser entendidos como uma ode degolada e inquietante, a consciência de que, apesar da derrota e da morte, temos de alimentar a teimosia da esperança. Assistimos, hoje, a uma alteração das paixões, e a uma anulação crescente dos paradigmas. Mas também presenciamos o reviver do princípio de que o homem é um ser de linguagem, e que, através dela, se procura uma outra identificação com o nosso tempo. Aí, a poesia tem uma decisiva palavra a dizer; como, aliás, sempre teve.
António Ferra diz-nos que todos nós vivemos no interior de todas as ausências, no mistério dos dias, e que nada é muito claro no crescer das vidas. Fornece-­nos notícias de si mesmo. Com recato, com pudor e comovida discrição. Na incoerência dos dias só existe a coerência maravilhosa da poesia: a mecânica da alma a opor-se, tenazmente, às peripécias que nos agridem, em nome de um falacioso futuro. E, entretanto, há as bombas, as matanças que tentam aniquilar «o corpo ainda sensível à memória», como o poeta no-lo diz. E há, igualmente, esse bicho-de-conta que nos murmura:

Não há pressa, tenho o tempo todo para correr na praia, / o tempo de abrir o motor e o porão cheio de remadores extenuados / onde alguém provocou um curto-circuito na noite ameaçada / por uma instalação mal feita (... )
É um belíssimo pequeno livro. Se me permitem, aplico à arte de António Ferra o juízo de Rostropovitch sobre a «Sonata Arpeggione», de Shubert: «Foi escrita em lá menor e dura dez minutos. O que não quer dizer que seja uma obra menor. Nem curta. Pelo contrário». Este pequeno livro maior convida-nos a percorrer a intimidade dos grandes silêncios, nos quais reside a intensa obsessão da vida.


Texto lido na Livraria Bulhosa, numa terça- feira, 12 de Dezembro, 2006, na apresentação do livro de poemas «A Palavra-Passe» de António Ferra.


terça-feira, 8 de janeiro de 2008

uma colecção interessante da extinta "Moraes"


















Colecção Palco, série Pistas. Divulgava-se por aqui muito teatro, nomeadamente Teatro para a infãncia.
Uma das razões que levou ao escassez de textos de teatro publicados foi o facto de os grupos de teatro fugirem à peça de autor vivo para não terem despesas de direitos de autor. Assim, podemos ver belíssimos trabalhos em cena, mas baseados noutras histórias conhecidas, património universal e / ou popular

notas ao olhar suburbano e outras séries

Olhar suburbano foi um tema que surgiu a partir da técnica da colagem que aqui desenvolvi. Utilizo principalmente materias de revistas ou jornais. Foi esta a minha grande escola da colagem. Depois, através do retrato, desenvolvi outros aspectos da utilização de materiais diversicados, como este que se segue, uma caixa onde utilizo elementos electrónicos



segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

recensão Jornal de Letras, 1996





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domingo, 6 de janeiro de 2008

ÁGUA E FOGO


















54 páginas. Formato 11×16 cm
Capa mole. Colecção Gema
ISBN 972-559-278-6

O sincelo deixa-me com os olhos presos no gelo, contemplando este palácio de silêncio. Não sinto frio, apetece-me segurar a tarde, porque hoje o sol quis ficar mais tempo a iluminar as árvores de cristal, a reflectir-me a alma na paisagem branca. Gostava de viver e morrer neste lugar.


















Este livro, editado pela então Associação Comunitária de Saúde Mental, relata experiências de trabalho e abre com a teorização da relações interpessoais - do nível pessoal ao nível institucional societário, de acordo com o modelo antropoanalítico. A edição é de 1992

sábado, 5 de janeiro de 2008


















Foi a primeira peça que escrevi, e ilustrei em1978. Muito representada, quer por grupos de teatro amador quer em escolas. Foi musicada pelo Francisco Naia, pouco depois da sua publicação. Destaco a representação pelo Teatro Animação de Setúbal, para o qual fiz os figurinos, que infelizmente se perderam com as mudanças do grupo. A encenação foi do Carlos César e integrou o primeiro encontro de teatro para infância e Juventude , em Lisboa, em 1979(?). Este festival é paralelo à criação do Centro de Teatro para a Infância e Juventude (CPTIJ) de que fiz parte. Integravam este movimento nomes como João Brites – que deixou a sua marca na dinamização – e ainda o José Gil, também fundador, o José Caldas, o Carlos Fragateiro, o Delfim Miranda, entre outros.



O Teatro Para Crianças em Portugal - história e crítica

por Glória Bastos

Representando esta vertente socialmente empenhada, temos ainda António Ferra, com vários livros publicados para teatro. Os seus textos, aliando fanta­sia e realidade, revelam preocupações sociais evidentes, quer pelo recurso a fi­guras-tipo (caso da peça que obteve o 2.° prémio de Teatro Infantil da SEC, em 1980, Caleidoscópio, com personagens como «o operário», «o camponês» ou «Maria, a mulher» ) quer através de personagens-animais e do seu discurso, como acontece, por exemplo, em Histórias e Teatrada... (1995) onde, a certa altura, três rãs comentam como os homens gastaram a água do lago e os males daí resul­tantes. Em Zé Mandão... (1978) temos uma crítica à sociedade industrializada que se preocupa apenas com o lucro, e uma reflexão sobre uma realidade que nem sempre corresponde a um sonho «cor-de-rosa», e que é sobretudo no es­forço conjunto e na cooperação que se pode construir um mundo melhor: «Belinda: Já comecei a aprender / que a vida não são só rosas, / o céu, a mon­tanha, o ribeiro/ quand'há gente que faz tudo/ pr'a conseguir mais dinheiro.»(P. 21) Neste texto ainda, a figura do Clown-Corremundo (novamente o palha­ço como um importante elemento mediador do conhecimento) surge como aque­le que tem uma perspectiva diferente sobre as coisas, mormente sobre as máquinas que roubam o «ganha-pão», ensinando os habitantes da vila a tirarem partido da máquina, que deixa de ser pertença de um para ser de todos (promoção do espírito cooperativista).

Ed. Caminho, 2006

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008



















Esta peça vem na sequência da anterior. A personagem é a mesma - o Corremundo.
Foi representada por vários grupos de teatro amador e em escolas básicas.
As ilustrações são também da minha autoria.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

sobre o "Livro de Reclamações!

APOSTILA - Façamos uma pausa. Descansemos, um pouco, desta desvergonha que nos rodeia. "Já somos poucos a aguentar", dizia-me, há dias, um querido e velho amigo, daqueles que também se envolveu em tudo sem exigir nada, a não ser um país livre e livremente respirável. Façamos uma pausa para ler, devagarosamente, com deleite e prazer, "Livro de Reclamações", de um grande autor português, António Ferra, cuja modéstia é proporcional ao seu imenso talento. Não; ele não aparece nas recensões do "Público", e está omisso nas graves páginas da Colóquio. No entanto, é um importante poeta, culto, inovador e original. Lê-lo é penetrar na visão, simultaneamente onírica e real, terna e sarcástica, de um autor que prossegue um caminho no qual os valores teimam em se não perder.

Baptista Bastos

(link Jornal de Negócios)


quarta-feira, 2 de janeiro de 2008