terça-feira, 31 de maio de 2016


segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Guiné 63/74 - P12019: Notas de leitura (518): "Crónica dos Novos Feitos da Guiné", por António Ferra (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 16 de Maio de 2013:

Queridos amigos,
Este livro é uma agradável surpresa, nele se cruzam culturas e sobretudo é dado em cores muito vivas todo o processo tumultuoso da Guiné em 1991, por ali desfilam portugueses e guineenses, carros avariados, negócios corruptos de peças de automóveis, o Oliveira e o Tomazinho Batota ciranda-se pelo 24 de Setembro, o Sheraton, a Pensão da Dona Berta e o mercado de Bandim.
Parece um livro de apontamentos e a observação mordaz do autor não esconde o seu olhar de antropólogo.
Temos ali a Bissau febril dos expedientes e de gente que quer viajar, sobretudo para Portugal. Não se esconde que é um país em roda livre, sufocado numa miríade de especulações.
De leitura obrigatória para aprofundar a vida daqueles tempos, vistos por um cooperante.

Um abraço do
Mário


Apontamentos curiosos de um cooperante na Guiné, em 1991

Beja Santos

“Crónica dos novos feitos da Guiné” por António Ferra, Europress, 1995, é no mínimo uma obra de consulta obrigatória para se conhecer os sentimentos de um cooperante numa Guiné a passar do partido único para o multipartidarismo. António Ferra é licenciado em filologia germânica e professor do ensino secundário. No seu currículo refere experiências literárias com grande ligação ao teatro infantil e também na área da pedagogia e animação.

O seu livro é escrito como um caderno de apontamentos e os respetivos capítulos têm o sentido de uma crónica, começam assim: em que se fala, de como se pode viajar, em que se mostra, em que se conta, de como os cooperantes vieram para cooperar… regista cheiros, quadros de azáfama, sente-se atraído por mistérios, como o poilão, que ele assim descreve: “O poilão é uma árvore centenária de grande porte, irregular e grossa, sobretudo na base, onde pode atingir dois metros de diâmetro. As raízes começam então a engrossar e, salientes como as veias das mãos de um velho gigantesco, enterram-se no solo, afirmando um suporte sólido e a emanação da força da terra, à maneira de cordame robusto a prender o navio aos pilares do cais. O sagrado e o segredo do poilão parece concentrar-se nessa magia de se ligar tão solidamente à terra e tornear-se pelos ramos, caprichosamente, até ao céu”.

Está atento ao bulício do porto do Pindjiquiti, vai zarpar um barco para a ilhar Bubaque, dá-nos uma água-forte vigorosa e introduz-se uma figura transversal a todos estes relatos, o Oliveira: “Este homem, mais acastanhado, tinha grandes empreendimentos em mão, todo o tipo de construções, e trabalhava para grandes empresas como intermediário de mão-de-obra. O que se tornava nele original era o não trabalhar, o saber negociar e intermediar de uma maneira que o dinheiro em divisas ou em pesos lhe vinha parar às mãos, através das relações que mantinha com os poderes políticos locais e do momento. Com a chamada abertura à liberalização económica, Oliveira estava a realizar o seu sonho, que já fora do pai, agora exilado pelo Governo e partido oficial, vai para alguns anos”. Ficamos a saber que há viaturas avariadas lá para a embaixada portuguesa, o que transtorna muitas vezes já que o jipe é nação portuguesa cooperante na Guiné-Bissau. Ficamos a saber um pouco mais sobre Maurícia, a companheira do Oliveira, a zeladora da casa, somos introduzidos em ambientes de cooperantes e assistimos ao desabar do Oliveira.

É então que percebemos que Oliveira ocupa um lugar charneira entre a colónia e o país independente, teve sucesso nos amores e nos negócios e depois foi levado ao desastre quando se lançou na construção do chamado bairro dos cooperantes portugueses, que foi levantado um pouco acima do Sheraton. “Receberam o dinheiro e não terminaram a construção, está quase pronta, faltando apenas o quase, de há três anos para cá. Lá por dentro tudo já está mudado, porque, com os assaltos, lá vão desaparecendo as torneiras, os autoclismos e o material elétrico que chegou a ser instalado parcialmente. Claro que Oliveira, por seu lado, gastava tudo com o grupo dos acólitos, pagando rodadas na Tropicana e noutras boates que apareceram então em Bissau”. Despromovido, vive agora na tabanca, sobrou uma pequena destilaria mas em pouco tempo deixou de ter posses para pagar aos cortadores de cana, teve que regressar às origens, retomando os antigos hábitos e valores.

A descrição da “chapa” de Bissau é também muito vigorosa, como o Bandim daquele tempo, um sociodrama da Guiné, assim apresentado: “Tudo ali aparece ampliado e distinto. Do lado direito quem sobe, o passeio é estreito e depois, mais para dentro, aparece uma grande vala de cimento que vai até mais acima. Do lado interior da vala estão vendedores de plásticos – bacias, baldes, canecas – e de bacias esmaltadas da Tailândia. E logo começam, então, junto ao passeio, as mesinhas com pacotes de cigarros Marlboro e L&M, fósforos, sabão azul, muito azul, pastilhas elásticas, latinhas de leite evaporado francês a 1500 pesos”.

Descobrimos que o sonho de todo o guineense é viajar, com preferência para Portugal, essa Guiné da transição já se encontra em estado deplorável. Conta-se a história de Paulo da Silva que vive num quarto acanhado, numa zona degradada de São Bento. Nasceu em Cacheu, um tio levou-o para Bissau onde estudou no liceu Kwame NKrumah, aprendeu matemática com Vladimir, professor soviético, e a língua portuguesa com o seu tio, António Jaló Feliz. Paulo veio frequentar um curso de português em Portugal, gostou da comida, da cama limpa, decidiu não voltar à Guiné, ele e todos os outros. “Procuram outros guineenses em Lisboa. O Osvaldo, que também integra a comitiva, tinha um primo que trabalhava na construção civil e vivia ali para os lados da Pontinha. Quanto ganha ele, quanto? Tira 50 contos, o malandro, e ainda manda 5 ou 7 para a família. Quantos pesos são 5 ou 7 contos? Tantos pesos! Maldito câmbio! Porque não são iguais todas as moedas? Porquê esta diferença? Paulo da Silva ficou. Tio António: escrevo a bocê, digo que a minha fica na Lisboa num trabalho bom ca arranjou o tio de camarada Osvaldo numa obra de construssão di prédiu e tanbem pagão bem, em escudo, em peso é manga di peso e pode mandar tanbem ao tio algum, seu sobrinho sempre muito amigo da gente ai, tia e criança Abdul, Paulo da Silva”.

Como uma desgraça nunca vem só, vamos ver Oliveira acidentado, depois a sua filha Odete com febre altíssima, ele corre espavorido à procura do milagre da aspirina, não acreditava nos antibióticos nem nos hospitais, a pequenita Odete de olhos grandes morreu levada pelo impiedoso sarampo.

Muito se falará ainda de cerimónias religiosas, dos armazéns do povo que não têm praticamente nada para vender, dos apartamentos degradados da Ankar e dos usos e costumes dos cooperantes, retratos crus de sonhos e quimeras, de solidariedades e de oportunismos.

Caminhamos para o fim, Oliveira ainda pensa em refazer a vida, comprando um táxi, juntando algum dinheiro da pouca aguardente de cana que ainda vai vivendo. Mas uma fatalidade instalou-se, uma fatalidade ou uma praga que dá pelo nome de corrupção, que se espalha por todas as atividades, incluindo o da educação. Aqui e acolá, fazem-se referências ao bife da Casa Santos e à comida da Pensão da Berta, referindo-se esta por ser instituição a funcionar com o mesmo paladar, quer antes quer depois da independência e mesmo durante os períodos maus em que escasseavam os géneros, antes e depois dos fuzilamentos que o grupo do camarada Nino patrocinara em 1986.

Tecem-se críticas mordazes: o sonho de um guineense em ascensão era ser homólogo (isto é, a outra parte do trabalho do cooperante) com viatura e combustível, de preferência em projetos ricos e conta-se a história exemplar de Tomazinho Batota, um ladino aperfeiçoado em múltiplos expedientes, de óculos Ray Ban e calcinha branca, como se fosse novamente um colono português à boa maneira. E o autor despede-se, desejando sinceramente que tudo corra bem, ainda se encontra com Oliveira na praça Che Guevara e reflete como se sobe e desce tão rapidamente naquele entreposto que dá pelo de Bissau…

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Fugindo de Todos os Fogos

Reduziu o galope ao chegar à falésia, ficando-se por um trote transpirado, até terminar num passo lento, a perscrutar os ventos que empurravam o cheiro a maresia misturado com a pestilência da terra queimada.
Via-se privado da verdura dos pastos. Estava só, sem saber por onde caminhar. Para quê o galope, quando o passo lento lhe bastava, sem que desse utilidade aos músculos treinados em escola de luxo? Olhava as aves marinhas assustadas, voando à procura de poiso seguro. Falava com elas em silêncio, por sinais secretos, numa linguagem eterna que só elas entendiam, com a humanidade ausente da borrasca, num exercício de liberdade sem a mediação do homem, resistindo à incómoda penetração do ar que lhe entrava pelas narinas para depois sair filtrado pela manhã pesada de tanto fogo fora de horas, como são todos os fogos.